Hoje decidi escrever sobre uma questão que sempre preferi não discutir. Não por falta de argumentação consistente, mas porque nos debates em que os fundamentos a favor e os fundamentos contra me parecem simultaneamente plausíveis mantenho-me à periferia.
A eutanásia, é sem dúvida alguma, uma questão que actualmente gera muita controvérsia. Quando se discute este tema, é inevitável falar em ética, em dignidade e no valor da vida humana. A quem cabe o direito de por fim à vida de outro ser humano, semelhante a si mesmo? Ainda que não seja de forma drástica ou repentina, quem tem a legitimidade para antecipar uma morte? Sim, porque é disso que falamos – a morte.
Compreendo que em circunstâncias extremas, quando um paciente se encontra num estado terminal, condenado ao sofrimento físico, psíquico ou emocional, é impossível ficar indiferente. Findar a sua dor, aquela tortura, como se de um acto de misericórdia se tratasse, parece ser o mais sensato. Mas quando a compaixão interfere com os nossos princípios morais elementares, enraizados na razão e na religião, essa prática perde todo o seu carácter piedoso e aproxima-se, inconscientemente, do acto homicida.
Creio que as sociedades que admitem o fim intencional da vida enquanto prática legal movem-se, inevitavelmente, no sentido de práticas injustificadas. E a piedade converte-se num acto de conveniência, simplesmente porque é lícito, breve e silencioso.
Não desprezo, contudo, o esforço dos médicos. Se o fazem é porque todas as alternativas já foram experimentadas. Eles desprendem-se dos seus objectivos individuais, invocam os seus valores emocionais, numa tentativa de aliviar o sofrimento do paciente. Sobrepõe o poder da morte aos valores da vida, em nome da dignidade. É certo que perante as situações precárias de saúde de alguns casos particulares quase somos compelidos a acreditar que o mais correcto será por fim à vida daquele condenado. Mas ainda que isso seja o mais correcto, não é para isso que os médicos vivem.
2 comentários:
Sim penso que os medicos existem para prelongar a vida. Mas para quê viver sem qualidade?
Pois. Por isso é que cada vez mais tenho mais certeza que não sou contra nem a favor. confuso?! :S
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