No mês de Setembro de 2000, Chefes de Estado e de Governo de 191 países reuniram-se em Nova Iorque e fixaram 8 objectivos, com metas bem definidas, que visam um mundo "mais próspero, mais justo, mais pacífico". Atribuiram-lhes a designação de Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) e são eles os seguintes:
1- Erradicar a Pobreza extrema e a fome
2- Atingir o ensino básico universal
3- Promover a igualdade de género e a capacitação das mulheres
4- Reduzir a mortalidade infantil
5- Melhorar a saúde materna
6- Inverter a propagação do VIH/SIDA, a malária e outras doenças
7- Garantir a sustentabilidade ambiental
8- Estabelecer uma parceria global para o desenvolvimento
Cada um destes objectivos tem metas quantitativas concretas para atingir até 2015. No entanto, vale a pena realçar que os ODM não são apenas metas quantitativas. São desafios que é urgente concretizar para que se tornem realidade. Representam milhões de vidas. São também valores e princípios que importa incutir na sociedade actual e transmitir às gerações seguintes – solidariedade, tolerância, igualdade, liberdade, responsabilidade comum e respeito ambiental.
visita também: http://odmcampuschallenge.org.pt
cicio
um blog minimalista, realista, humanista, trocista e outras coisas que não estão nesta lista
A serviçal
Lá estava eu. Já a noite ia longa e eu trabalhava enérgica e apressadamente. Caminhava com a mesma velocidade com que me movia em todas as noites de trabalho, com a mesma eficiência. O meu olhar manteve-se sempre muito atento: a todo e algum acenar, a todos os gestos que pudessem indicar pedidos de auxílio. Enquanto eu me deslocava, com rapidez, para entregar as bebidas à alta aristocracia, as gargalhadas ecoavam pela sala. A alegria, o luxo e o charme eram contagiantes.
Na extremidade direita do salão, acomodavam-se as senhoras que debatiam acerca da importância da emancipação da mulher; bebiam chá e articulavam os gestos com a mesma delicadeza e serenidade com que se movem os ponteiros de um relógio vulgar.
Do outro lado do salão, junto ao bar, estavam os homens que festejavam, anedotavam, riam-se e comentavam os destaques da actualidade. Eram eles os autores das risadas sonoras.
Criticavam a politica e a justiça, falavam da viabilidade de futuros projectos financeiros, elogiavam o desporto… a atmosfera do salão transbordava em intelectualidade, cultura e júbilo. Era contagiante, deveras contagiante.
Num instante em que a correria abrandou, encostei-me ao bar, no canto do salão. Pousei a bandeja no balcão e fitei, momentaneamente, um casal que dançava. A satisfação com que bailavam, fazia-os destacar perante a multidão. Como se um corredor se abrisse por entre a turba, apenas para que eu os olhasse.
Os seus passos eram tão precisos, tão suaves, que ambos pareciam imunes à gravidade. Seguiam, sem errar, o ritmo lento da música alternando com rodopios mais velozes, acrobacias inacreditáveis. Trocavam olhares apaixonados, carícias e cicios. A melodia e a paixão pareciam não querer cessar.
Um arrepio de inveja percorreu todo o meu corpo. Eu queria estar ali, no centro daquela pista, a dançar com a mesma voluptuosidade e elegância.
A minha breve utopia foi interrompida por uma voz masculina, que me falou num tom grave:
- Ó menina, traga-me um vinho do Porto.
Na extremidade direita do salão, acomodavam-se as senhoras que debatiam acerca da importância da emancipação da mulher; bebiam chá e articulavam os gestos com a mesma delicadeza e serenidade com que se movem os ponteiros de um relógio vulgar.
Do outro lado do salão, junto ao bar, estavam os homens que festejavam, anedotavam, riam-se e comentavam os destaques da actualidade. Eram eles os autores das risadas sonoras.
Criticavam a politica e a justiça, falavam da viabilidade de futuros projectos financeiros, elogiavam o desporto… a atmosfera do salão transbordava em intelectualidade, cultura e júbilo. Era contagiante, deveras contagiante.
Num instante em que a correria abrandou, encostei-me ao bar, no canto do salão. Pousei a bandeja no balcão e fitei, momentaneamente, um casal que dançava. A satisfação com que bailavam, fazia-os destacar perante a multidão. Como se um corredor se abrisse por entre a turba, apenas para que eu os olhasse.
Os seus passos eram tão precisos, tão suaves, que ambos pareciam imunes à gravidade. Seguiam, sem errar, o ritmo lento da música alternando com rodopios mais velozes, acrobacias inacreditáveis. Trocavam olhares apaixonados, carícias e cicios. A melodia e a paixão pareciam não querer cessar.
Um arrepio de inveja percorreu todo o meu corpo. Eu queria estar ali, no centro daquela pista, a dançar com a mesma voluptuosidade e elegância.
A minha breve utopia foi interrompida por uma voz masculina, que me falou num tom grave:
- Ó menina, traga-me um vinho do Porto.
uma questão de vida ou morte
Hoje decidi escrever sobre uma questão que sempre preferi não discutir. Não por falta de argumentação consistente, mas porque nos debates em que os fundamentos a favor e os fundamentos contra me parecem simultaneamente plausíveis mantenho-me à periferia.
A eutanásia, é sem dúvida alguma, uma questão que actualmente gera muita controvérsia. Quando se discute este tema, é inevitável falar em ética, em dignidade e no valor da vida humana. A quem cabe o direito de por fim à vida de outro ser humano, semelhante a si mesmo? Ainda que não seja de forma drástica ou repentina, quem tem a legitimidade para antecipar uma morte? Sim, porque é disso que falamos – a morte.
Compreendo que em circunstâncias extremas, quando um paciente se encontra num estado terminal, condenado ao sofrimento físico, psíquico ou emocional, é impossível ficar indiferente. Findar a sua dor, aquela tortura, como se de um acto de misericórdia se tratasse, parece ser o mais sensato. Mas quando a compaixão interfere com os nossos princípios morais elementares, enraizados na razão e na religião, essa prática perde todo o seu carácter piedoso e aproxima-se, inconscientemente, do acto homicida.
Creio que as sociedades que admitem o fim intencional da vida enquanto prática legal movem-se, inevitavelmente, no sentido de práticas injustificadas. E a piedade converte-se num acto de conveniência, simplesmente porque é lícito, breve e silencioso.
Não desprezo, contudo, o esforço dos médicos. Se o fazem é porque todas as alternativas já foram experimentadas. Eles desprendem-se dos seus objectivos individuais, invocam os seus valores emocionais, numa tentativa de aliviar o sofrimento do paciente. Sobrepõe o poder da morte aos valores da vida, em nome da dignidade. É certo que perante as situações precárias de saúde de alguns casos particulares quase somos compelidos a acreditar que o mais correcto será por fim à vida daquele condenado. Mas ainda que isso seja o mais correcto, não é para isso que os médicos vivem.
A eutanásia, é sem dúvida alguma, uma questão que actualmente gera muita controvérsia. Quando se discute este tema, é inevitável falar em ética, em dignidade e no valor da vida humana. A quem cabe o direito de por fim à vida de outro ser humano, semelhante a si mesmo? Ainda que não seja de forma drástica ou repentina, quem tem a legitimidade para antecipar uma morte? Sim, porque é disso que falamos – a morte.
Compreendo que em circunstâncias extremas, quando um paciente se encontra num estado terminal, condenado ao sofrimento físico, psíquico ou emocional, é impossível ficar indiferente. Findar a sua dor, aquela tortura, como se de um acto de misericórdia se tratasse, parece ser o mais sensato. Mas quando a compaixão interfere com os nossos princípios morais elementares, enraizados na razão e na religião, essa prática perde todo o seu carácter piedoso e aproxima-se, inconscientemente, do acto homicida.
Creio que as sociedades que admitem o fim intencional da vida enquanto prática legal movem-se, inevitavelmente, no sentido de práticas injustificadas. E a piedade converte-se num acto de conveniência, simplesmente porque é lícito, breve e silencioso.
Não desprezo, contudo, o esforço dos médicos. Se o fazem é porque todas as alternativas já foram experimentadas. Eles desprendem-se dos seus objectivos individuais, invocam os seus valores emocionais, numa tentativa de aliviar o sofrimento do paciente. Sobrepõe o poder da morte aos valores da vida, em nome da dignidade. É certo que perante as situações precárias de saúde de alguns casos particulares quase somos compelidos a acreditar que o mais correcto será por fim à vida daquele condenado. Mas ainda que isso seja o mais correcto, não é para isso que os médicos vivem.
Elogio ao amor
(...)
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado que quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
(Miguel Esteves - Expresso)
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado que quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
(Miguel Esteves - Expresso)
prometo
Esfrego os olhos e ainda vejo tudo embaciado. Há muito tempo que, para mim, o mundo se revela baço, desfocado, desfigurado, abstracto.
Acordo esta manhã só porque já não suporto o sabor do meu próprio hálito na minha boca, o aroma amargo a álcool. Na noite passada, abri as últimas garrafas do nocivo elixir e ingeri-as intercalando com breves intervalos de gargalhadas ébrias. É inevitável esta sede que antecipa a minha morte.
Sentado no café, mirava invejoso os bêbedos a devorar, com alegria, o tal xarope. Eu passava a língua sobre os lábios ressequidos, pagava a minha despesa e retirava-me do estabelecimento.
Tive recaídas. Não foram poucas. Mas já lá vão seis meses de intensa persistência, sem saborear uma única gota. Decidi comemorar abrindo uma garrafa antiga e valiosa que guardo na prateleira da estante da sala. Sorrindo, murmurei em diálogo com a minha própria alma: esta é apenas a última, prometo.
«Só os bêbados conseguem de facto, perceber que a Terra está a girar.»
Acordo esta manhã só porque já não suporto o sabor do meu próprio hálito na minha boca, o aroma amargo a álcool. Na noite passada, abri as últimas garrafas do nocivo elixir e ingeri-as intercalando com breves intervalos de gargalhadas ébrias. É inevitável esta sede que antecipa a minha morte.
Sentado no café, mirava invejoso os bêbedos a devorar, com alegria, o tal xarope. Eu passava a língua sobre os lábios ressequidos, pagava a minha despesa e retirava-me do estabelecimento.
Tive recaídas. Não foram poucas. Mas já lá vão seis meses de intensa persistência, sem saborear uma única gota. Decidi comemorar abrindo uma garrafa antiga e valiosa que guardo na prateleira da estante da sala. Sorrindo, murmurei em diálogo com a minha própria alma: esta é apenas a última, prometo.
«Só os bêbados conseguem de facto, perceber que a Terra está a girar.»
Aquela mulher
Mulata, espírito urbano, rosto suave mas ocultado por densas camadas de maquilhagem. A tissagem cobria por completo a região traseira do tronco. Os seus seios, jovens e hirtos, estavam expostos num decote insinuante. O cinto, ou mini-saia (como preferirem chamar) , deixava a descoberto as suas coxas delgadas e finas. As botas de tecido envernizado prolongavam-se até um pouco acima do joelho e os saltos – ah esses! – em cada passo, faziam ecoar um compasso musical que ecoava por toda a avenida. Num movimento sedutor, a morena sacudiu a cabeleira e ergueu o braço esquerdo sobre a nuca, evidenciando uma complexa floresta negra nas axilas.
Consegui sentir a catinga agressiva, quase venenosa, que dali emanava e, imediatamente, com este simples gesto, todo o encanto quebrou-se.
Ela sorriu-me. Perguntou-me num tom surdo e atrevido, embora com um sotaque péssimo que interrompia todo o erotismo das suas palavras:
-“Quanto merreço porr uma noite de amorr contigo?”
Como se o amor fosse algo instantâneo, venal e descartável! Estas putas de merda põe-me louco! Preferi não ser grosseiro e respondi com um sorriso trocista.
Avancei sem qualquer destino ou calendário. Notei que o ritmo do caminhar dela tornou-se mais veloz e, simultaneamente, menos audível. Quis entender o porquê, pensei em olhar para trás mas não fui capaz, algo deteve-me. Ouvi um grito. Desta vez não hesitei. O meu corpo rodou em torno do seu próprio eixo. Fitei, perpetuamente, durante alguns segundos, a avenida e… nada. Tudo desapareceu.
Senti as minhas pernas frágeis, incapazes de suportar o meu próprio peso. Momentaneamente, pensei que iria colapsar sobre mim mesmo. Algo manteve-me suspenso. A seguir, acordei.
Consegui sentir a catinga agressiva, quase venenosa, que dali emanava e, imediatamente, com este simples gesto, todo o encanto quebrou-se.
Ela sorriu-me. Perguntou-me num tom surdo e atrevido, embora com um sotaque péssimo que interrompia todo o erotismo das suas palavras:
-“Quanto merreço porr uma noite de amorr contigo?”
Como se o amor fosse algo instantâneo, venal e descartável! Estas putas de merda põe-me louco! Preferi não ser grosseiro e respondi com um sorriso trocista.
Avancei sem qualquer destino ou calendário. Notei que o ritmo do caminhar dela tornou-se mais veloz e, simultaneamente, menos audível. Quis entender o porquê, pensei em olhar para trás mas não fui capaz, algo deteve-me. Ouvi um grito. Desta vez não hesitei. O meu corpo rodou em torno do seu próprio eixo. Fitei, perpetuamente, durante alguns segundos, a avenida e… nada. Tudo desapareceu.
Senti as minhas pernas frágeis, incapazes de suportar o meu próprio peso. Momentaneamente, pensei que iria colapsar sobre mim mesmo. Algo manteve-me suspenso. A seguir, acordei.
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