prometo

Esfrego os olhos e ainda vejo tudo embaciado. Há muito tempo que, para mim, o mundo se revela baço, desfocado, desfigurado, abstracto.
Acordo esta manhã só porque já não suporto o sabor do meu próprio hálito na minha boca, o aroma amargo a álcool. Na noite passada, abri as últimas garrafas do nocivo elixir e ingeri-as intercalando com breves intervalos de gargalhadas ébrias. É inevitável esta sede que antecipa a minha morte.

Sentado no café, mirava invejoso os bêbedos a devorar, com alegria, o tal xarope. Eu passava a língua sobre os lábios ressequidos, pagava a minha despesa e retirava-me do estabelecimento.
Tive recaídas. Não foram poucas. Mas já lá vão seis meses de intensa persistência, sem saborear uma única gota. Decidi comemorar abrindo uma garrafa antiga e valiosa que guardo na prateleira da estante da sala. Sorrindo, murmurei em diálogo com a minha própria alma: esta é apenas a última, prometo.


«Só os bêbados conseguem de facto, perceber que a Terra está a girar.»

1 comentário:

Lua disse...

É o problema da nossa sociedade "é o último prometo" e todas e quaisquer dependências. Contudo, tenho uma esperança, vã por vezes, que um dia a humanidade vai ter capacidade para dizer "basta!", basta ao vicios, basta às traições (a nós mesmos e aos outros), basta aos males que nós embelezam por fora e nos corroem por dentro! Acredito que um dia vão de facto não se tornar dias, e que cada pessoa vai fazer as coisas por si, e não porque o semelhante do lado também o está a fazer!

Beijinhos lunares,

Parabéns pelo texto!