Aquela mulher

Mulata, espírito urbano, rosto suave mas ocultado por densas camadas de maquilhagem. A tissagem cobria por completo a região traseira do tronco. Os seus seios, jovens e hirtos, estavam expostos num decote insinuante. O cinto, ou mini-saia (como preferirem chamar) , deixava a descoberto as suas coxas delgadas e finas. As botas de tecido envernizado prolongavam-se até um pouco acima do joelho e os saltos – ah esses! – em cada passo, faziam ecoar um compasso musical que ecoava por toda a avenida. Num movimento sedutor, a morena sacudiu a cabeleira e ergueu o braço esquerdo sobre a nuca, evidenciando uma complexa floresta negra nas axilas.
Consegui sentir a catinga agressiva, quase venenosa, que dali emanava e, imediatamente, com este simples gesto, todo o encanto quebrou-se.
Ela sorriu-me. Perguntou-me num tom surdo e atrevido, embora com um sotaque péssimo que interrompia todo o erotismo das suas palavras:
-“Quanto merreço porr uma noite de amorr contigo?”
Como se o amor fosse algo instantâneo, venal e descartável! Estas putas de merda põe-me louco! Preferi não ser grosseiro e respondi com um sorriso trocista.
Avancei sem qualquer destino ou calendário. Notei que o ritmo do caminhar dela tornou-se mais veloz e, simultaneamente, menos audível. Quis entender o porquê, pensei em olhar para trás mas não fui capaz, algo deteve-me. Ouvi um grito. Desta vez não hesitei. O meu corpo rodou em torno do seu próprio eixo. Fitei, perpetuamente, durante alguns segundos, a avenida e… nada. Tudo desapareceu.
Senti as minhas pernas frágeis, incapazes de suportar o meu próprio peso. Momentaneamente, pensei que iria colapsar sobre mim mesmo. Algo manteve-me suspenso. A seguir, acordei.

1 comentário:

Rúben disse...

Hum... parece-me que existem duas partes no texto, uma parte em que há discrição da tal senhora e diálogo entre as persongens e outra parte em que parece haver uma mensagem, mas eu não apanhei a mensagem... talvez seja algo que esteja relacionado contigo... mas não sei... diz-me tu!